Acervo
Mira Schendel Óleo sobre tela Década 60 100x100cm
Mira Schendel Óleo sobre tela Década 60 100x100cm
Mira Schendel Nanquim sobre papel artesanal 1965 61x48cm - 63x49cm com moldura
Mira Schendel Nanquim sobre papel artesanal 1965 61x48cm - 63x49cm com moldura
Biografia
Mira Schendel
Zurique, Suíça, 1919 - São Paulo, SP, 1988

Myrrha Dagmar Dub, desenhista, pintora e escultora, muda-se para Milão, Itália, na década de 1930, onde estuda arte e filosofia. Abandona os estudos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Estabelece-se em Roma em 1946 e, em 1949, obtém permissão para mudar-se para o Brasil. Fixa residência em Porto Alegre, onde trabalha com design gráfico, pintura, escultura em cerâmica, poemas e restauro de imagens barrocas, assinando com seu nome de casada, Mirra Hargesheimer. Sua participação na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, permite contato com experiências internacionais e insere a artista na cena brasileira. Dois anos depois, muda-se para São Paulo e adota o sobrenome Schendel.

Na década de 1960, realiza desenhos em papel de arroz. Em 1966, cria a série Droguinhas, elaborada com papel de arroz retorcido e trançado, apresentada em Londres, na Galeria Signals, por indicação do crítico Guy Brett. Nesse ano, passa por Milão, Veneza, Lisboa e Stuttgart. Conhece o filósofo e semiólogo Max Bense, que contribui para sua exposição em Nurembergue e escreve o texto do catálogo. Em 1968, começa a produzir obras em acrílico, como Objetos Gráficos e Toquinhos. Entre 1970 e 1971, realiza cerca de 150 cadernos desdobrados em várias séries. Na década de 1980, produz as têmperas brancas e negras, os Sarraffos e inicia quadros com pó de tijolo. Após sua morte, diversas exposições apresentam sua obra no Brasil e no exterior. Em 1994, a 22ª Bienal Internacional de São Paulo dedica-lhe uma sala especial. Em 1997, o marchand Paulo Figueiredo doa um grande conjunto de obras ao MAM-SP.

A produção de Mira Schendel, marcada pela constante experimentação, é composta por múltiplas séries, diversas em formato, técnica e suporte, mas coerentes nas questões que levantam. Essa multiplicidade torna difícil a divisão de sua obra em fases cronológicas, pois muitos aspectos retornam, se desdobram e se redefinem entre uma série e outra.

Suas obras raramente têm títulos; quem recebe nomes são as séries, funcionando como apelidos. Entre 1949 e 1953, vivendo em Porto Alegre, realiza retratos e naturezas-mortas em tons escuros. Na década de 1950, sua pintura simplifica-se progressivamente, explorando o tratamento da superfície. Entre 1954 e 1956, produz pinturas densas, sombrias, em têmpera ou óleo sobre madeira e tela.

A década de 1960 marca um período de intensa produção. Nos primeiros anos, dedica-se à pintura, misturando técnicas e suportes como gesso, cimento, areia e argila, criando superfícies densas que ressaltam o suporte como elemento ativo. Entre 1962 e 1964, realiza os Bordados, seus primeiros trabalhos com papel japonês, com tinta ecoline, geralmente geométricos e transparentes. Retoma essa linha nos anos 1970.

Entre 1964 e 1966, produz grande quantidade de desenhos em papel de arroz, as célebres Monotipias, resultantes da técnica de desenhar pelo verso do papel apoiado sobre vidro entintado, usando a unha ou instrumento pontiagudo. Esse método reduz o controle sobre o traço, incorporando irregularidades que interessavam à artista mais do que a precisão. Nessas obras, alterna linhas, letras, palavras, frases, símbolos e caligrafias, investigando a plasticidade da linguagem.

Em 1965, realiza a série posteriormente chamada Bombas, com grandes massas negras de contornos indefinidos em nanquim sobre papel úmido. Em 1966, além das Droguinhas, cria os Trenzinhos, folhas de papel japonês penduradas em fila num “varal”.

Segundo a historiadora Maria Eduarda Marques, as Droguinhas explicitam a intenção da artista de se opor ao “permanente” e ao “possuível”, subvertendo expectativas do mercado e das instituições.

Em 1967, inicia os Objetos Gráficos, com papel de arroz entre chapas de acrílico transparente, permitindo visualização dupla. Em 1968, cria os Toquinhos, peças de acrílico transparente contendo cubos com letras, signos gráficos ou papéis tingidos. Na 10ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1969, apresenta Ondas Paradas de Probabilidade, instalação com fios de nylon suspensos em grades quadriculadas. Ainda nesse período, produz os Discos, placas circulares com letras e números prensados entre acrílicos, e os Transformáveis, pequenas tiras articuladas de acrílico que projetam luz na parede.

Entre 1970 e 1971, cria aproximadamente 150 Cadernos, muitos hoje no acervo do MAC/USP. Em 1973 e 1974, realiza outra série de Toquinhos, com colagens de quadrados de papel japonês colorido. Em 1974, desenvolve os Datiloscritos, usando tipos de máquina de escrever.

No fim da década de 1970, retoma séries anteriores e cria outras menores, como as Mandalas, influenciadas pela filosofia oriental. A partir de 1975, faz as Paisagens Noturnas, com ecoline sobre papel japonês e aplicações de ouro. Entre 1978 e 1979, produz as Paisagens de Itatiaia, em têmpera negra com aplicação de letras.

Para a 16ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1981, cria 12 obras chamadas I Ching. Em 1983, realiza Mais ou Menos Frutas, natureza-morta de traço seco, entre figuração e abstração. Em 1987, cria a série Sarraffos, última concluída, definida pelo crítico Ronaldo Brito como um “salto à dimensão do corpóreo”, por transitar entre pintura, relevo e escultura. Nesse mesmo ano, inicia quadros feitos com pó de tijolo sobre madeira, dos quais conclui apenas três.

Exposições