Curators
Antonio Carlos Suster Abdalla
11. abr 11. maio. 2018

O Visionário Theon Spanudis e seu Grupo de Artistas

Crítico e colecionador de arte como poucos, Theon Spanudis era dono de uma visão privilegiada. Frequentador de ateliês de pintores, tornou-se figura singular no mundo das artes, sendo um dos primeiros a incentivar e adquirir obras de nomes ímpares da arte brasileira, tais como Alfredo Volpi, Mira Schendel, Niobe Xandó e Rubem Valentim. Estes são alguns dos artistas que integram a coletiva O Visionário Theon Spanudis e seu Grupo de Artistas, que a Galeria Berenice Arvani recebe a partir de 10 de abril. Na ocasião, também será lançado o livro O Círculo de Theon Spanudis, que traz a biografia do crítico, além de ensaios, depoimentos, fotos e alguns destaques de sua importante coleção.

Com curadoria de Antonio Carlos Suster Abdalla, a exposição segue um viés histórico e apresenta cerca de 40 trabalhos, de um corpo de 17 artistas: Alfredo Volpi, Arnaldo Ferrari, Bárbara Spanoudis, Eleonore Koch, Fang, Fernando Odriozola, Jandyra Waters, José Antônio da Silva, Luiz Sacilotto, Mira Schendel, Montez Magno, Niobe Xandó, Ramón Cáceres, Rubem Valentim, Rubens Azevedo, Ubirajara Ribeiro e Valdeir Maciel.

“Psiquiatra por formação, Spanudis foi um crítico e colecionador desbravador, um homem sensível, de ampla cultura, que não se atinha a modismos, visões definitivas ou fechadas. No sentido contrário à excessiva valorização dos critérios passageiros do mercado de arte, tinha absoluta liberdade de opinião”, afirma Abdalla.

Para o curador, Spanudis foi um grande catalisador de influências. Filho de pais gregos, nutria e vivenciava a ideia de mestre e discípulos. Era fiel representante dessa forma de convivência fraterna e intelectual, aproximando-se de alguns artistas e contribuindo para a formação de seus pares, muitos também colecionadores. “Ele foi um apaixonado sem amarras e reuniu, ao seu redor, um elenco memorável de artistas e um invejável círculo de amigos, distribuindo seu legado cultural a todos que tivessem sensibilidade e estivessem interessados na construção de uma cultura, de fato, perene”, pontua Abdalla.

Mais do que colecionador, Spanudis apoiou vários dos artistas que o surpreenderam, seja pela obra, seja pela visão que tinham acerca da arte brasileira. Aos poucos, inseriu-os em seu ciclo social. Jandyra Waters e Valdeir Maciel foram dois pintores dentre os mais próximos do crítico. Do ponto de vista pictórico, ambos tinham em comum o recurso do desenho geométrico, estética pela qual Spanudis nutria destacada preferência e fidelidade. À dupla juntava-se também Rubem Valentim, pintor que, a seu ver, conquistara o mais alto nível das artes plásticas contemporânea internacional e mundial por incorporar em seus trabalhos os símbolos religiosos afro-brasileiros.

“O caminho do construtivismo brasileiro absolutamente abstrato que Valentim iniciou (…) já traz novos e saborosos frutos inéditos, na criatividade tão rica de um Valdeir Maciel e de uma Jandyra Waters. Rubem Valentim é precursor de todos eles. Valentim abriu esse caminho que terá, sem dúvida, continuadores singulares no futuro. Rubem Valentim, um gênio do construtivismo religioso brasileiro”, declarou certa vez o crítico.

Recém-chegado da Europa, sem qualquer domínio da língua portuguesa, encantou-se com o trabalho de Alfredo Volpi. A relação que mantinha com o pintor era de grande proximidade, apesar da personalidade reclusa do modernista. Foi um dos poucos a frequentar seu ateliê e, certa vez, comprou dele toda uma exposição, então em cartaz na famosa Galeria Domus.

“Volpi é um dos maiores coloristas do mundo e do nosso tempo (…) suas qualidades de grande colorista desenvolveram-se plenamente e amplamente após ter superado a sua fase inicial populista e paisagista, enfim, após ter superado a sua pintura tonal e desenvolvido uma pintura plana de coloridos diretos”, publicou o crítico em 1964.

Spanudis tentou repetir a façanha compulsiva em uma individual do principiante José Antônio da Silva, a seu ver, “o maior gênio primitivo que o Brasil conheceu”. Teve, entretanto, seus planos confrontados por Pietro Maria Bardi, com quem fez acordo para dividir os trabalhos apresentados na mostra.

“Sua obra, tão rica e diversificada em assuntos, vibra com um magismo telúrico extremamente forte, dinâmico e inquieto (…) Um vigor e um canto da exuberância desse mistério que é a natureza, como nunca foi expresso no Brasil e no mundo inteiro”, escreveu o colecionador, referindo-se ao trabalho do pintor do interior paulista.

Curadoria: Antonio Carlos Suster Abdalla