Curators
Pedro Matrobuono
14. set 20. out. 2017

A beleza é metafísica na pintura de Lúcia Glaz

Uma primeira chave de aproximação ao trabalho de Lucia Glaz é a absorção do silêncio e da beleza de suas telas. No plano aparente, na superfície, instala-se um silêncio que se impõe e, gradualmente, se interioriza em nós.

Mesmo nas obras de maior vibração cromática — de cores quentes ou contrastes mais marcados — persiste esse silencioso envolvimento. Ele nasce do universo cromático da pintura e, portanto, de sua dimensão emocional (inevitável…), conduzindo o observador ao âmago perceptivo de quem silencia, ou é induzido a silenciar, para mirar o trabalho. A obra pede quietude; qualquer palavra parece excessiva.

Esse primeiro olhar, embebido desse primeiro silêncio, capta um efeito apaziguador: uma acomodação, um repouso, um conforto plástico nos universos cromáticos criados pela artista.

Isso ocorre inclusive nas telas de orientação vertical, em que há mais movimento. Nelas, as nuances de profundidade e as transições entre campos de cor — ou dentro deles — rivalizam com a orientação ascendente das linhas. Mas trata-se de uma rivalidade silenciosa.

São questões internas à pintura, resolvidas nela própria, sem ruído. E o silêncio, condição sine qua non para qualquer reflexão consequente, emerge sobretudo na trégua visual — característica, ainda que não exclusiva, das telas de orientação horizontal.

Ali, qualquer sugestão de profundidade, qualquer indício de terceira dimensão, apenas reforça a paisagem de quietude e contemplação. Uma paisagem sem apelo ao exterior — puramente íntima, emocional — que conduz à interiorização e, por consequência, à reflexão. Afinal, somos ocidentais.

Esse segundo olhar, o que leva à reflexão, é o que permite inferir uma estrutura subjacente àqueles recortes de beleza, às sutilezas tonais e variações cromáticas.

São inferências, conclusões posteriores, quando começamos a imaginar o procedimento pelo qual Lucia chegou àquele resultado plástico aparentemente plácido e neutro. Uma abstração que, numa primeira impressão enganosa, poderia aproximá-la das propostas assépticas e frias do neoplasticismo, levado às últimas consequências por Mondrian, por exemplo.

Mas isso apenas na aparência inicial. No segundo olhar, e na reflexão que ele desperta, percebe-se que o trabalho de Lucia Glaz dialoga com desdobramentos posteriores daquela tradição neoplástica: a apropriação de suas pesquisas estruturais e sua expansão pelo construtivismo e pela arte metafísica.

Nesse sentido mais profundo, a arte de Lucia Glaz aproxima-se do que se pode chamar de construtivismo cromático, em suas intersecções com a pintura metafísica. Seu trabalho se comunica com o sentido propriamente espiritual presente em artistas como Torres-García e Alfredo Volpi, além das silenciosas cogitações dos pintores metafísicos. Sob os planos de beleza cromática, revela-se uma pesquisa estrutural, perceptível ao segundo olhar — mesmo para quem nunca tenha contato com seus desenhos, esses sim, abertamente construtivistas.

A questão da estrutura e de sua busca nas artes visuais — e sua ligação com o sentido metafísico da arte — remete diretamente à definição de “metafísica”: a estrutura da realidade universal, que desce do primeiro princípio, infinito e eterno, até seus inumeráveis reflexos no mundo manifestado, através de níveis ou planos de existência.

Não por acaso os trabalhos de Lucia Glaz se desenvolvem em séries. Não por acaso os que a conhecem ressaltam a ligação entre sua vocação artística e seu pendor espiritualizado. Trata-se de um fazer silencioso, sem alarde, sem disputa por reconhecimento ou mercado. Um retraimento que ecoa o próprio sentido espiritual de sua trajetória. Afinal, a submissão da subjetividade àquela estrutura superior sempre foi apontada, em diversas tradições, como condição para a realização espiritual — e, no caso de Lucia Glaz, a arte é essa realização.

Curadoria: Pedro Matrobuono