Curators
M. A. Amaral Rezende
25. ago 25. set. 2015

Antonio Lizárraga – Surpresas Sutis

Lizárraga pinta surpresas. Surpreende pela vivacidade, pela alegria de pintar expressa por sua ousadia cromática. As formas-cores saltam, uma dança com a outra, uma surge de outra e em outras. Movimentos como um bailado de cores e geometrias.

Quando você olha, a cor do fundo dança com um azul-mistério, o verde-sublime transfigura-se em um vermelho rubiáceo. Em outra tela, um vértice do quadrado vermelho pipoqueia como uma seção de quadrado-violeta. Em cada tela, uma nova surpresa. À medida que você mais olha, mais surpresas descobrirá. É bem a própria essência do jogo criativo. Revela o que não se espera, o impossível.

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Em vibração permanente, inédita action painting geométrica.

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Lizárraga conseguiu fazer bem o que Merleau-Ponty dizia ser impossível: pintar com o espírito. Sua arte vem dos olhos interiores, pinta com o cérebro. Mais enigmático, único, surpreendente.

Mergulhou no seu mundo interior, foi fundo como pouquíssimos seriam capazes de ir. Reinventou-se como pintor, em todos os sentidos. Vê mais simples e mais complexo ao mesmo tempo. Mais enigmático e mais surpreendente. Renasceu para a pintura como exercício de surpresas sutis.

Lizárraga encontra os “punti luminosi”, dantescos. São implosivas micro-surpresas. Aqueles momentos como o surgimento de um ponto vermelho num retângulo azul-mistério, um mini-retângulo azul em meio a um conjunto de formas maiores, um traço vermelho em malha de dezenas de linhas verdes.

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É como um jogo de cartas, onde Lizárraga saca a carta que não existia, que ninguém suspeitava — sempre a carta-máxima.

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Excepcional colorista, sem medo de arriscar, Lizárraga revela cores e combinações jamais vistas. Mais que cores únicas, realiza combinações surpreendentes, sempre iluminares.

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A técnica de pintar não é mais que um instrumento para o espírito inventivo. Um meio para exteriorizar o que o seu olho interior viu e vê.

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As telas de Lizárraga me lembram a pergunta de João Cabral de Melo Neto: “Como um ser vivo pode brotar de um chão mineral?”. Como formas e cores estáticas fazem surgir formas dinâmicas, plenas de vidas, como se dançando numa festa muito alegre, pirilampas?

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O paradoxo de Lizárraga: a simplicidade feita complexa, a complexidade feita simples, máxima densidade com máxima leveza.

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Lizárraga talvez seja o mais alegre dos pintores brasileiros. Uma alegria como aquela das crianças brincando de amarelinha. De pulo em pulo. Sem medo de cair — não caem. Saltitam, umas além das outras. Vagalumes coloridos, sempre sutis.

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Como bom argentino, Lizárraga dança um tango geométrico colorido. “Sensualidade perversa”.

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Os títulos das pinturas e esculturas, em geral, tendem a ser objetivos, substantivos e factuais, racionais. Os artistas visuais não se destacam pela imaginação verbal. Mas, poeta nato, Lizárraga é diferente. Os títulos expressam seu humor, reforçam sua alegria de criar e sua lúcida, enigmática inteligência: “Oito margens para um quadrado”, “Salão destinado à prática da sinuca”, “Skate”, “Ditongo”, “O interior das paralelas”, “Ciranda secreta do peixe voador”. E assim vai… Bem mais divertido que “Mona Lisa”, não?

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Lizárraga seguiu um caminho-solo, inverso ao dos pintores concretos de sua geração. Estes deixaram a geometria devido ao esgotamento do limitado repertório das formas básicas. Ele, não. Veio das formas orgânicas, não geométricas, para seguir pelo caminho da disciplina geométrica, em seu rigor extremo: quadrados, retângulos e círculos. O mínimo do mínimo. Vivificou pela energia das cores e de suas combinações inéditas.

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Se me perguntam qual é a “mensagem” de Lizárraga, respondo de imediato: pintar é preciso, viver não é preciso — parafraseando Camões e Caetano. A arte é a energia vital, fonte essencial da alegria de viver com plenitude. Sem a arte, a vida é neblina, banal, indigna de ser vivida.

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Mais que o início do resgate de Lizárraga, um pintor fora da curva, esta exposição marca a ressurreição da alegria da arte como energizante da alegria de viver mais, sem nevoeiros.

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As telas são como mantras, canalizam as energias das luzes das formas e das luzes das cores, serenas e dinâmicas.

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As cores euforizam, isto é, trazem uma sensação do bem-estar belo. Fosfóricas.

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Não se colocam problemas filosóficos ou estéticos. Colocam-se soluções pictóricas. Como se Lizárraga nos dissesse: “Os pintores devem pintar, não devem pensar falações pseudo-filosóficas. E ponto”. Nem por isso Lizárraga deixa de propor enigmas pictóricos, provocações para quem ainda queira lhe grudar uma etiqueta. Construtivista? Minimalista? Hard-edge? Lizárraga escapa de classificações. É um pintor fora da curva, como sempre viveu fora das tribos e grupos em sua vida. O próprio self-made man para si mesmo.

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A maioria dos pintores utiliza uma controlada paleta de cores — algo como uma marca registrada, uma zona de conforto, expressão de sua identidade e comportamento pictórico, sua persona. Lizárraga é diferente: como uma criança, brinca com as cores, sem medo de errar, livre para colorir. Nesta exposição, a vivacidade cromática de Lizárraga se revela em dezenas de verdes. Seu olhar interior vê uma multiplicidade de tons para cada matiz. É assim desmesurada a sua pintura. Segue o exemplo dos grandes mestres, como Cézanne. Apenas na série da Montagne Sainte-Victoire há centenas de verdes. Em La Femme à la cafetière, há tantos tons de azul no vestido da senhora quanto há pinceladas — infinitos, ou quase.

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“A cor é o lugar onde nosso cérebro e o universo se encontram. É por isso que ela parece ser tão dramática para o verdadeiro pintor. As linhas mantêm os tons prisioneiros, mas é necessário liberá-los”, diz Cézanne. Lizárraga cumpriu a ordem. Atingiu a beleza que uma palavra sintetiza: YUGEN. Contada por Haroldo de Campos, é a palavra-chave da estética japonesa. Traduz-se por “charme sutil”.

M. A. Amaral Rezende