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Rua Oscar Freire 540, Jardins - São Paulo/ SPCurators
Daisy PeccininiCarlos Eduardo Uchôa – Infinito Olhar

A exposição de Carlos Eduardo Uchôa vem mostrar pinturas e fotografias, inusitadas imagens. Resultantes de um infinito olhar, captador de metáforas, de sutilezas no limite último do visível, sua arte transita nas bordas do território do metafísico, do sagrado, e expande-se indefinidamente.
As obras refletem mergulhos do artista para além do horizonte do mundo real, do óbvio, em busca do que é invisível. O lançar-se extralimites do enquadramento da visão, do olhar óptico, está unido à experiência mística, a um território do mistério, do invisível e do indizível. Essa dimensão é possível de ser atingida, dada a condição de elevada sensibilidade, amalgamando o talento artístico com a mística de monge.
O artista nunca se conformou com a representação do mundo ou com a figuração definida e estável de formas abstratas para a sua arte, segundo as tendências abstratas geométricas e construtivas, dizendo-se “incomodado com a coisa que é extremamente precisa, com a régua”.
Atraído pelo processo contínuo de mutação do mundo, que reflete a contínua transformação da essência, do Ser Supremo, Uchôa define sua pintura afirmando que “ela sempre é uma materialização da experiência de Deus”. Trata-se de uma projeção incessante, em moto contínuo, “do que está acontecendo e tem que se manifestar”. Suas pinturas e suas fotografias estão sempre em estado de transformação iminente para outro estado: “Cada pintura é um momento meu, existencial, no mundo, jorrando a experiência de Deus. Tudo o que existe de novo é a ação criadora de Deus.”
Considerando esse processo constante e surpreendente, o artista busca “estar sempre aberto às surpresas do Criador”. Sente-se não só como canal de percepção do mundo, mas como participante dele, segundo a fenomenologia de Merleau-Ponty.
PINTURAS: SÉRIE H
O conjunto de pinturas da série H é fascinante; são frutos desse olhar captador do infinito, onde o artista concilia complexas características que são, por natureza, irreconciliáveis: a construção e a expressão. Pinturas de inestimável valor por suas singularidades criativas e riquezas de significados. Desde o título: o H que revela a forma das pinturas sobre telas retangulares de orientação vertical; o H também remete a significados outros, tais como: Horizonte, Hora H, Hoje, etc.
Na série H, Carlos Eduardo Uchôa estabelece harmonia entre duas qualidades antagônicas: a construção e a expressão, entre o que é espontâneo e o que é disciplinado.
Se a construção disciplina a expressão, não significa que lhe seja atribuído o valor predominante. Considera o artista que a pintura tem uma construção que é temporal, envolvendo deliberadamente a ocupação de um espaço: “É o tempo lento, muito lento, do fazer. Essa é a minha pintura.”
Se a construção desenvolve o espaço da pintura, a expressão envolve o artista em captar uma visão, uma situação diferente, e extrovertê-la. Visão não só óptica, mas também subjetiva. Para Uchôa, pintar envolve um esforço, um exercício espiritual, uma experiência de fé. Ele afirma: “A pintura é saturação de uma experiência espiritual que vou extrovertendo no processo de pintar.”
As camadas nascem do gesto da pincelada, de escolhas do artista incorporadas da experiência. Nessas camadas, ele extroverte na tela velaturas que se sobrepõem em transparentes véus, sutis transformações que são veladas em parte e, em parte, reveladas.
A pintura e a fotografia de Uchôa são marcadas pelo pensamento de Dionísio, o Areopagita, místico do século VI e expoente da teologia apofática — aquilo que não se pode dizer, e segundo a qual Deus é sempre mais, é inapreensível.
Na tradição monástica à qual o artista pertence, esse é exatamente o ensinamento: a experiência de Deus transcende qualquer palavra. Como monge beneditino, Uchôa pratica entre os preceitos da ordem os apoftegmas — pequenas histórias, parábolas, palavras ou ditos dos monges do deserto dos séculos III e IV, cujo objetivo era extrair uma compreensão espiritual. Caminho atingido por meio de oração, meditação e contemplação.
Compreende-se, então, que vida, pintura e oração sempre caminharam juntas na trajetória do artista. Enfim, a espiritualidade está sempre unida à arte.
Diante de suas pinturas, o espectador se vê chamado a debruçar-se e a entregar-se ao diálogo com a obra. É ser levado à contemplação, de forma mais lenta, longe do olhar epidérmico e rápido, para captar o além profundo da paisagem — rastreando o infinito olhar do artista; não uma visão simplesmente onírica qualquer, mas como se fosse a revelação do Ser.
FOTOGRAFIAS: SÉRIE “REFLEXÕES”
Desta série, oito fotografias constituem um seleto conjunto. Podem ser uma continuidade das pinturas. Entretanto, as fotos diferem no processo, pois têm o decalque direto da natureza. Quer dizer: olhar e descobrir, naquilo que é muito óbvio do cotidiano, um outro mundo. Uma imagem singular nasce porque ela captura uma nova visão que, de certa forma, condensa a experiência humana no mistério da própria existência.
O sentido é o da impermanência: a constante transformação do mundo sob a ação do Ser. Essas transcendências da imanência fazem as fotografias de Uchôa atingirem um nicho de captação do sublime.
As fotografias são parte desse desvelamento, desse encantamento do mundo — um mistério. A série Reflexões tem como conceito diretor os estados da matéria (sólido, líquido e gasoso) relacionados aos estados da própria natureza: água, terra e ar. A água é o elemento mediador, onde realidade se transfigura, se condensa e desvela seu mistério. São fotos simples, que captam o agora, dando ao próprio elemento água o papel de espelhamento da impermanência do ar. A transitoriedade contínua é capturada no instante de uma das múltiplas metamorfoses.
O artista olha o mundo e vê o invisível. A fotografia, para ele, congela e captura — é uma experiência imediata, dando imagem ao novo do Ser, que se transforma continuamente.
Suas fotografias não têm nenhum truque ou manipulação tecnológica. Existe apenas um pequeno aumento de cor, mínimo. Não há sobreposição. O que ele vê, ele registra.
Esses reflexos, por vezes, parecem pintura: resultados do infinito olhar do artista. Uchôa relata seu processo de captura:
“Vou passeando, vou andando, vou vendo a hora do dia, porque é a luz que transforma tudo. De repente, a incidência de luz no fim da tarde… e vejo aquela água que fica na praia, que reflete arvoredos e casas que têm cor — parecem pinceladas, mas, na verdade, são a própria areia, a terra e a água, o elemento concreto e o líquido. A água se transforma em espelho, ao mesmo tempo transparente, porque reflete o que está fora e o que está embaixo. É o momento de fotografar e capturar a imagem.”
Avesso à manipulação digital que inunda o imaginário contemporâneo, Uchôa reafirma:
“Essas minhas imagens não têm nada de arbitrário. Elas apresentam a descoberta do mundo. É um insight: vejo e capturo sempre o que não está dado e não é óbvio. Não é criar impacto gratuito, mas ver um mundo invisível, dizer o não dizível.”
Para o artista, vida, pintura, fotografia e espiritualidade sempre caminharam juntas. O artista monge afirma:
“Para mim, a arte é o grande território do ser humano, a própria transfiguração do homem. A arte se junta com a experiência de Deus.”
Curadoria: Daisy Peccinini
