Marinaldo Santos – Urbano Pop

Colagens de azulejos de Belém, bandeirolas de procissões, desenhos nublados de figuras; cotidiano vivenciado nos desenhos, nas telas, nas montagens; coroas recortadas de lata dourada e prateada encimando assemblages; sagrados corações — ou corações de galinha; palavras do dia a dia decorando os compartimentos de armários verticais ou horizontais subdivididos em planos quadrados e retangulares; armários desenhados, pintados, montados em madeira rústica (“parti do armário; meu pai trabalhava com madeira, fazia peças para a casa; brincávamos de esconder”, com o fascínio do “dentro do armário”). Daí a constante de Marinaldo: o armário — fechado, ou com prateleiras com objetos — a partir do material colhido na cidade, na casa, na rua, nas festas, no restaurante, no bairro. Mas o desenho geométrico se impõe ao observador nos quadrados e retângulos da superfície.
Pinturas e compartimentos povoados com imagens de garças, pedaços de madeira colorida, pregos enfileirados e martelados, louças, latas recortadas, amassadas e inscritas com datas; pratos de ágata decorados; objetos de mercado; perfis de lata; arames condutores retorcidos; lembretes; balões ou “splashes” de quadrinhos; a figura ou o carro do Batman; a constante dos pés triangulares dos armários montados ou pintados; e a projeção dos apertos de cada dia — “Bangalô do agiota”, “Pago hoje”, “Aparelho de fazer gato medidor de luz”. E, de repente, nada de gambiarras — mas um construtivo: como o Armário do bicho (1997), seco, de invejável reducionismo cromático; ou Trouxudu (2004), engenho/montagem.
A terceira dimensão emerge naturalmente em Marinaldo: decoradas as seções de suas construções verticais ou horizontais, pictóricas ou montadas, com acréscimos apenas inscritos — as datas insinuadas, as figuras humanas nebulosas, justapostas às decorações de cromatismo aplicado com liberdade total. Retorna a constante do Círio, o açaí, elementos da paisagem visual de Belém — o porto, o mercado — colagem completada pelo desenho, com a nostalgia da velha fotografia aposta: o Pará com o sangue que se esvai pelo caudal dos rios em direção ao Brasil central. E, de repente, uma composição vertical fora de série: supremacia visual de LPs e três cintas masculinas sobre superfície vasta e formalmente reducionista, com enigmático rosto linearmente esboçado.
Afinal, Marinaldo Santos é um artista do Pará — onde, em Belém, suas obras se veem por toda parte. Autor de trabalhos que conheci no início dos anos 1990, quando participei de um júri paraense. Daquele tempo, guardo um desenho… Sempre um armário. Estudando em escola do SESI, aos 12 anos já trabalhava em fábrica de castanhas e, depois, em tempos difíceis, numa serraria recolhendo o pó da madeira. Aos 15, saiu de casa, vivendo por sua conta; em certo período distribuindo a Folha do Norte, até começar a expor em coletivas no Pará a partir de 1983, apresentando-se individualmente pela primeira vez em Belém, na Galeria Elf, em 1985.
Um artista do Pará: Estado poderoso, que projeta um orgulho explícito, vinculado sem dúvida à sua riqueza e vastidão territorial. Sua contribuição cultural há muito não se limita à presença dos projetos grandiosos do arquiteto Antonio José Landi, nem à herança de Emílio Goeldi; lembra também a ação do arquiteto Paulo Chaves. Hoje, não repousa mais apenas na tradição fotográfica (Luiz Braga — e que o digam Marisa Mokarzel e Rosely Nakagawa), ou em sua gastronomia reconhecida. Nas artes visuais, há muito chama nossa atenção: seja nas obras de inspiração indígena na cerâmica de Rui Meira, seja no trabalho de Osmar Pinheiro e Sarubbi; mas, sobretudo, de maneira incisiva, na arte de Emanuel Nassar, que resgata — ao lado de Luiz Braga — a luz, a cor e a visualidade do magnetismo dos subúrbios e da cidade de Belém. Magnitude captada também nas montagens de Emanuel Franco com pinturas populares dos ribeirinhos. E, mais recentemente, na vivência, em Marabá, de Marcone Moreira, em variações a partir de embarcações de rio, com partes seccionadas, isoladas e recompostas, apreendendo a memória de uma realidade.
Há muito já não acreditamos na falácia da universalidade da arte. A arte de qualquer lugar só é decodificável por quem possui iniciação a ela — ou uma cultura comum, enfim. Assim como é raro o europeu, o norte-americano ou qualquer estrangeiro sensibilizar-se profundamente com a arte de nosso país — cujos desdobramentos nós conhecemos, pois vivemos sua formação — seria igualmente ilusório pretender compreender plenamente a arte chinesa, japonesa ou coreana apenas visitando museus desses países. Podemos nos impressionar com técnica ou virtuosismo — sem dúvida. Mas apreender cabalmente o sentido daquelas obras sem conhecer cultura, filosofia de vida, história — seria ousadia excessiva. Assim como é ousado pretender delimitar com precisão o que é popular e o que é contemporâneo. A arte do “outro” tende a parecer fantástica, exótica — ou então se dilui no global.
Imagine-se, então, quando nos aproximamos do universo do popular. Nem todo brasileiro das grandes cidades se sente tocado, ou é sensível ao dado popular — seja do Brasil, do México, da Guatemala, do Peru, ou de qualquer outro país cuja riqueza cultural se equipare à de Ceará, Pará, Mato Grosso, Goiás, ao interior de Minas, aos sertões do Nordeste, ou ao imaginário do interior de São Paulo. No entanto, é um exercício de pura educação visual sensibilizar o olhar para o universo maravilhoso dessa arte tão próxima de nós.
Marinaldo Santos nos oferece agora, com sua arte urbano-pop, a oportunidade de apreciar a criatividade que irrompe de seus olhos e de suas mãos — atentos ao cotidiano e aos sabores de sua cidade, de seu tempo, de sua circunstância. Olhos que buscam em seu entorno os materiais, as palavras, as cores; que resgatam, recortam, reúnem e constroem com aspereza serena — projetando tudo em nova imagem, para nosso encantamento.
Curadoria: Aracy Amaral
